No próximo livro o objetivo será planear a vida, inclusive as tarefas do dia. Falaremos muito e praticaremos. Há pelo menos duas ferramentas para organizar a vida — as mais usadas — embora haja outras, como horários tipo Franklin. Aqui falarei de listas to-do e calendários. E, por estranho que pareça, continuo partidário das to-do. Porquê? Verás.
A ideia das to-do é fazer uma lista do que tens de fazer hoje. Podes priorizar ou não — não é o essencial. O importante é que podes ir mais longe e não só listar as tarefas do dia mas usar um calendário (ex.: Google Calendar) e pôr todas as tarefas planeadas com hora. Por exemplo:
10:00–12:00 reunião,
12:30–13:30 almoço,
13:00–14:00 passeio,
14:00–15:00 médico.
A ideia está clara. Não é obrigatório pôr sempre hora à refeição ou a coisas menores, mas sim registar tudo o que consideres importante.
Conheço pelo menos duas pessoas que vivem pelo calendário. A sério, e que cumprem as tarefas. Uma é o autor de "O meu dia produtivo", um fanático da produtividade (no bom sentido). Pode experimentar na vida graças a rendimentos passivos estáveis e a um assistente que fica com a rotina incómoda. A outra é o nosso director geral, empresário de sucesso que vai mais longe: livra-se das tarefas mais desagradáveis delegando ou pagando (dentro do razoável — desporto ninguém faz por ele). Por isso o dia do autor e do meu chefe tem menos tarefas rotineiras e negativas, as que fazem muita gente rejeitar o planeamento. Eles podem viver estritamente pelo calendário. Eu não.
Já vivo por horários de mês a mês, de semana a semana, de dia a dia. Se além disso seguisse um horário hora a hora, enlouquecia. Preciso de liberdade para escolher o que fazer pelo menos ao nível do dia. Sobre liberdade de escolha falaremos no capítulo da motivação. Acho que qualquer um acharia desagradável que lhe imponham — ou se imponha — um horário de vida com eventos hora a hora. Talvez haja quem esteja disposto a seguir o calendário sem questionar também na vida pessoal. Esses provavelmente conseguirão mais. Mas acho que não é para todos. Eu incluído. Não quero estar preso ao calendário. Só sei o que tenho de fazer no dia, tenho-o numa to-do (ou numa lista) e faço quando me convém. Claro que usar calendário não impede mover, trocar ou adiar tarefas — muitas vezes até se incentiva. Mas então, para mim, perde-se o valor do calendário: volta a ser uma lista de tarefas, só que num calendário em vez de numa to-do.
Imagina que és um empregado normal. No trabalho de certeza já tens um horário claro: o que fazer e quando, sem contar os encargos urgentes do chefe e os relatórios que «tinham de ser entregues ontem». Agora imagina que na vida pessoal também vives pelo calendário — tanto o que gostas como a rotina. Para mim assim a vida deixa de ser um conto e passa a ser uma prova sem graça. Por isso continuo a achar que calendários e seguimento estrito por horas não são para todos.
Até no trabalho procuro em geral não dar aos programadores tarefas espontâneas que tenham de ser feitas «hoje» ou, pior, «já». Claro que os «incêndios» existem: às vezes é preciso apagar fogos na hora ou preparar um relatório para outro departamento com urgência. Mas na maioria das vezes dou tarefas com mais margem, por exemplo uma semana. A minha relação com os programadores baseia-se em parte na confiança. Sei quanto tempo levam as tarefas que dou. Assinalamos as mais importantes e urgentes. Mas a maioria não tem de ficar pronta no mesmo dia, por isso podem planear a semana ou pelo menos o dia. Têm escolha, e espero que isso ajude a evitar o burnout. Eles próprios disseram que se sentem bem assim. Na minha experiência, na vida pessoal e no trabalho, seguir o calendário à risca nem sempre ajuda. Não é para todos. Ainda assim não o meteria nos factores que atrasam a produtividade. É mais um caminho para a depressão, que sim a atrasa. Mas como há quem viva pelo calendário, o método serve a alguns. A mim os calendários na vida pessoal não me têm corrido bem por agora. Mas podes experimentar — talvez gostes mais.